Água, Fogo, Ar e Terra são os principais elementos da natureza segundo os antigos filósofos gregos e os alquimistas medievais. Hoje, no Dia Mundial da Água, é oportuna a reflexão acerca de sua importância e de como ela pode auxiliar na compreensão da vida, da finitude, da consciência e da justiça.
Saint-Exupéry sofreu sede extrema após cair com seu avião no deserto da Líbia. Prestes a desfalecer, foi socorrido por beduínos com a preciosa água de que tanto necessitava. Assim escreveu: “Água sem gosto, sem cor, sem aroma, que não pode ser definida, que tomamos sem conhecer. Não é necessária a vida: é a vida.” Essa experiência o inspirou a escrever o livro O Pequeno Príncipe.
Seja no meio ambiente, seja no organismo, a água não pode ficar parada. Ela precisa seguir os ciclos naturais do planeta. Se esse elemento ficar retido no corpo, é doença: barriga d’água, retenção hídrica, inchaço, hidrocefalia etc. A vida requer a justa medida de água. Na dose certa ela é saúde; em excesso, afogamento. Algumas moléculas de H2O, que circulam no seu corpo, nesse exato momento de leitura, podem ter passado por rios, cachoeiras, mares e, eventualmente, no organismo de um dinossauro ou, quiçá, de figuras históricas como Dom Pedro II. Por outro lado, a mesma água pode ter percorrido circuitos menos nobres: nas veias de lunáticos, sociopatas e assassinos. Pode ter saído tanto do Jordão quanto do Tietê.
No limiar da finitude da vida, ocorre a dissolução do elemento Água a partir da desidratação intratável e irreversível, como observa a médica intensivista Ana Claudia Quintana Arantes. Em seguida, as usinas celulares de produção de energia (mitocôndrias) são desligadas, ocorrendo a extinção do elemento Fogo. Por fim, acontece a última expiração de ar ou derradeiro suspiro. O fôlego de vida se esvai, ou seja, ocorre a liberação do elemento Ar. Em seguida, o corpo volta ao pó, perdendo a sua forma. É a decomposição do elemento Terra. A propósito disso, em hebraico, há três expressões interessantíssimas: 1) Alma Líquida (Nefesh: נפש); 2) Alma Flamejante (Neshamá: נשמה) e 3) Sopro de Vida(Ruach: רוח). Com a finitude da vida, sucedem as dissoluções desses elementos vitais – ou ânimas. Em suma é o que ocorre debaixo do sol, sem entrar demasiadamente no terreno religioso, que fica por conta do leitor.
A consciência humana apresenta três esferas, segundo o espanhol Carlos Puchal. A primeira esfera é a consciência do Eu, enquanto a segunda é a consciência dos Outros. A água nos ajuda a compreender, no meu entender, a terceira esfera: a consciência do Mundo ao percebermos que estamos todos misteriosamente interligados. Compartilhamos as mesmas moléculas de H2O com toda a humanidade e demais seres vivos; animais ou plantas, do passado e do futuro.
O ciclo da Água aponta para o senso de unidade e justiça. Há pessoas desprovidas de compaixão, impulsivas, reativas e irreconciliáveis. Passamos por momento sombrio diante do aumento da violência, restrições à liberdade de pensamento e de expressão, prisões indevidas e cobranças excessivas de impostos. A Água, no entanto, é refrescante, desintoxicante, revitalizante e, por que não dizer, redentora. Ela permite o reequilíbrio (osmose e homeostase) na justa medida. É nela que o faltoso mergulha e emerge para uma nova vida, como a espada Excalibur, abandonando traumas, vícios, ressentimentos e ódios. Assim, os que têm sede de justiça serão saciados.
Lembre-se de desejar Feliz Dia da Água para alguém!
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Notas:
- Este Ensaio foi publicado originalmente nos jornais O Imparcial de Presidente Prudente e Integração de Presidente Venceslau sob o título Ensaio sobre a água, respectivamente em 21 e 22 de março de 2025.
- Figura 1- Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT, OpenAI), conforme curadoria pessoal do autor, Aldir Guedes Soriano, em 21 de março de 2025.
[1] Carl Sagan. Pálido ponto azul. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
[2] Antoine de Saint-Exupéry. Terra dos homens. São Paulo: Via Leitura, 2015.
[3] Ana Claudia Quintana Arantes. A morte é um dia que vale a penas viver. Rio de Janeiro: Sextante, 2019.
Rifka Berezin. Dicionário Hebraico-Português. São Paulo: Edusp, 2003.
[5] Carlos Adelantado Puchal. As esferas da consciência: eu, os outros e o mundo. Santos: Edições Nova Acrópole, 2024.
Howard Pyle. Rei Arthur. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.
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