domingo, março 15, 2026

Iranianos sob Fogo Cruzado

        


        A partir do último sábado (28/02/2026), os olhos do mundo se voltaram para o Irã a partir do momento em que cenas dos precisos ataques militares dos EUA e Israel contra bases militares iranianas, complexos nucleares e abrigos de terroristas começaram a chegar. Líderes importantes da ditadura teocrática iraniana como o aiatolá Ali Khamenei pereceram. Em retaliação, o Irã atacou alvos civis na Arábia Saudita, Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes e Turquia. 

         Além de preservar o milenar legado cultural persa, o Irã gerou em seu solo a tradição Bahá’í, a meu ver, uma das religiões mais pacifistas, resilientes e tolerantes que tive a oportunidade de conhecer. 

         Gravíssimas violações de direitos humanos vêm ocorrendo no Irã desde a Revolução Xiita-Islâmica de 1979. Em 07 de junho de 2011, tive a oportunidade de encontrar a muçulmana e iraniana Shirin Ebadi - ganhadora do Nobel da Paz; a convite do então presidente da OAB-SP, Luiz Flávio Borges D’Urso, para um evento na sede da Praça da Sé. Nessa ocasião, Ebadi fez comovente apelo para que a advocacia brasileira enviasse mensagens à embaixada iraniana pedindo a libertação de dez advogados, que estavam presos no Irã por defenderem opositores do regime xiita perante a justiça. 

         Em 2009, eu já alertava para o infortúnio iraniano mediante artigos publicados na Revista Jurídica Consulex. “No Irã, os direitos das mulheres são constantemente violados. Homossexuais são enforcados em praça pública. Além disso, não há liberdade de consciência e de crença. Minorias privadas do direito fundamental à liberdade religiosa são duramente perseguidas.” A propósito, também deixei consignado em artigo que a “Resolução da Assembleia Geral da ONU no. 64 de 2009 manifesta profunda preocupação com recorrentes violações de direitos humanos praticadas pelo Irã como: 1) Tortura e apedrejamentos de mulheres, espancamentos e amputações; 2) Discriminação de mulheres por lei; 3) Perseguição religiosa contra cristãos, judeus, muçulmanos sunitas e, em particular, bahá’ís. Estes são impedidos de frequentar universidades e não têm as mesmas oportunidades de trabalho; 4) Restrições à liberdade de expressão e de reunião pacífica; 5) Persistente falha do devido processo legal e 6) Violações de direitos humanos com intimidações e perseguições, incluindo detenções arbitrárias ou, até mesmo, desaparecimentos forçados de opositores políticos, jornalistas, “blogueiros”, advogados, clérigos, defensores de direitos humanos, acadêmicos e estudantes, resultando em inúmeros mortos e feridos.” 

         A partir de 2025, manifestantes saíram em grandes protestos contra o governo dos aiatolás no Irã. Em inúmeras ocasiões, a Guarda Revolucionária Iraniana abriu fogo contra a sua própria população, matando milhares de homens, mulheres e crianças. Isso tem nome em Ciência Política: Democídio (Vide Rummel). Em português se diz: covardia de um regime teocrático, cruel e impopular como são todos os governos totalitários e revolucionários que reservam o paraíso na terra para si e explora e escraviza a sua própria população. 

         A ditadura iraniana foi abalada, mas a luta do povo iraniano continua até a conquista da estabilidade política, paz e liberdade. A Guarda Revolucionária Xiita-Islâmica ainda está ativa e a teocracia pode ser reorganizada. Este breve artigo é apenas o eco do pedido de ajuda de Shirin Ebadi. Que a sua voz, aqui relembrada, possa continuar alcançando ouvidos sensíveis, gerando compaixão, movimentos de solidariedade, apoio da comunidade internacional e intervenções a favor do povo iraniano: oprimido por seus próprios governantes. A soberania popular iraniana pode sair vitoriosa diante do enfraquecimento da ditadura, mesmo em meio ao caos e sob fogo cruzado. Artigo Publicado no jornal O Imparcial de Presidente Prudente-SP, em 06/03/2026. Disponível em https://www.imparcial.com.br/noticias/iranianos-sob-fogo-cruzado,79250.